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Brinquedoteca Itinerante e Popular

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Resenha Poética com Cláudio Wagner: O livro “Flor de Catus”, da poetisa Clécia Santos


FLOR DE CACTUS
As transformações biológicas da Poesia de Clécia Santos


             O livro “Flor de Catus”, da poetisa Clécia Santos, foi lançado de forma independente pela autora e impresso pela WP Gráfica e Editora. Nesse livro, que já é segunda edição, vamos encontrar poemas majestosos, que realçam em cada verso as muitas belezas do Sertão Potiguar.
             O poema Flor de Catus, que dá nome a obra, o primeiro do livro, é uma espécie de cartão de visitas do que espera por nós, pois nele já dá para se ter uma ideia das belezuras do universo poético no decorrer de cada página, nos orientando pelos muitos relevos e paisagens do nosso belo sertão, que mesmo em sua aridez, provocada pelo fenômeno da seca, deixando o solo sem vida, é, ao mesmo tempo, um lugar de belas imagens, e essas, a poetisa Clécia captura em seus poemas, que são um presente para quem os lê. Em cada verso, ficamos deleitados com as descrições grandiosas que a poetisa consegue sintetizar sobre essa parte de nosso estado (país).
             O poema Flor de Catus começa com uma apresentação que, por si só, gera uma gama de interpretação, pois ou a autora, ou a flor, ou o livro, porque não dizer os três juntos, dizem assim: " Sou um caixa de surpresas" (p.5). Hora, uma caixa de surpresa pode conter muitas coisas, coisas boas e coisas nem tão boas assim, mas o importante é a surpresa, é o inusitado, saber que o que nos aguarda foge do campo opaco das convenções, não é algo dado, já a mostra e sim, algo que irá se revelar, porém, essa revelação é apenas para os munidos de ousadia, os que tem coragem para abrir a caixa e assumir o ônus que a surpresa pode proporcionar, e vale muito apena entrar nessa caixa livro, embarcar para descobrir o que Clécia Santos irá revelar com sua poesia. O que essa bióloga de formação consegue passar a respeito do DNA das palavras, como ela consegue manipulando esse DNA, dar vida em estruturas poéticas a todo um Sertão que deixa de ser o Sertão das lamurias, das misérias provocadas pelo flagelo da seca, ganhando uma conotação de força, de beleza, de vida que pulsa num eterno se reinventar, refazer, reconstruir, pois onde está o humano, está o belo para o fazer poesia, e isso Clécia Santos demonstra como poucos.
             O Sertão que nos dá a Flor de Catus é o que está nas entranhas da poesia de Clécia Santos e, é belo, porque é humano, e é esse humano que observando a paisagem localiza em seu olhar a beleza e a força que uma flor singela pode revelar e nos dizer sobre ela, algo que nem todo humano está disposto a enxergar.
             O Sertão que nos dá a flor de Catus e que está nas entranhas da poesia de Clécia Santos, é belo, porque é humano, e é esse humano que ao observar a paisagem, visualiza em seu olhar a beleza e a força que uma flor singela pode revelar.
Agora, vais tirar a cara desse aparelho, onde estais a ler esse texto e vais pelas ruas de Natal a procurar o lugar onde seres unicelulares (letras), vão se juntar em palavras cada vez mais complexas, para que essas deem forma a poesia. Procura e lê o que escreve Clécia Santos, pois assim entenderas um pouco sobre a gênesis que forma a poesia que hoje constituem nova a Flor de Cactus e as transformações biológicas da sua poesia.

 
Claudio Wagner
Poeta, professor historiador, Cientista das Religiões, 1º Secretário da SPVA/RN e autor do livro Entre a Sombra da Razão e a Razão da Sombra.

REFERÊNCIA
SANTOS, Clécia. Flor de Cactus. Produção Independente. Natal/RN.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Resenha Poética com Cláudio Wagner: “O espetáculo do mundo” de Angelo Girotto.


UM PRESENTE EM 2015

A verdade é um castelo que construímos para satisfazer nossas vontades”
Paul Veyne


            De quando eu tinha 15 anos de idade e estudava na Escola Estadual Isabel Gondim, no bairro da Rocas, lembro-me de uma conversa que tive com minha professora de redação, que foi mais ou menos assim: “Ei, professora, o que é uma resenha? Já que a senhora está falando que na aula de hoje teremos que fazer uma.” Ela, antes de responder, disse: “Já sei que você não veio na última aula”. “Claro que não, tava na praia”. “Você não se cansa da praia?” “Claro que não, mas canso com facilidade da escola.” Se soubesse mesmo as consequências disso, ou nunca teria faltado, ou jamais teria voltado lá na escola.
             Mas, a professora, mesmo sabendo que esse que agora escreve tinha faltado a aula, respondeu assim à minha pergunta: “Uma resenha é um texto escrito de forma que nele possamos apresentar uma crítica ou pensamento que um autor(a) apresentou em um livro, ou sobre um filme, ou uma peça de teatro. Enfim, é um recurso pelo qual podemos apresentar para outras pessoas nosso ponto de vista sobre determinado tema (assunto). De pronto, eu disse: “Ah! Basta falar mal de uma dessas obras e pronto?”. A professora, que já estava perdendo a paciência, mas que mantinha a elegância que sempre foi sua característica, disse: “Se você viesse mais às aulas e deixasse um pouco a praia, certamente saberia que críticas podem ser tanto construtivas, ou seja, podem levantar aspectos bons, como podem ser destrutivas, apontando aspectos ruins. Isso vai da forma como você se posicionará sobre a obra que irá resenhar”.
            Quase trinta anos depois, estou me incumbindo de escrever uma resenha e mensurando o que perdi naquelas aulas. Com um pouco de medo das mil e uma teorias sobre a língua portuguesa e da mãe do meu filho, que é uma professora de português das melhores e que, se eu vacilar no uso das palavras, arranca meu pescoço.
               Deixando o medo de lado, hoje apresento a obra “O espetáculo do mundo”, novela de Angelo Girotto.
            Bem, se você quer saber o que é uma novela e pensa que essas linhas irão lhe explicar, logo lhe advirto, não é esse o meu objetivo, mas sim, explicar como a ponte aérea Curitiba-Natal nos presenteou um personagem, Antônio Block e seus muitos dilemas, como Angelo Girotto, esse fazedor de textos, deu para o personagem, como cenário de atuação, o mundo em toda sua espetacularidade.
Lembre-se que uma leitura é, ou deveria ser, uma interpretação pessoal e que os pontos que serão abordados aqui sobre o livro “O espetáculo do mundo, são escolhas que fiz. Você poderá fazer outras, mas aqui estarei apresentando que, o que o autor nos dá, torna sua obra um presente, o que seu personagem nos proporcionará, ressignificará nossas vidas, tirará nossos medos e, quem sabe, até nos acrescentará outros.
Block, bem que poderia ser uma pessoa como as outras, poderia ter crescido, aceitado sua existência sem questioná-la. Poderia até mesmo só se casar, ter filho, um contracheque, conta no banco e contas para pagar em todos os seus vencimentos. Porém, que graça teria isso? Seria Angelo Girotto tão ingênuo a ponto de nos deixar de herança alguém comum? Claro que não.
             De Antônio Block, só sabemos um pouco da infância, já que no livro ela só é acionada, permitindo a quem o ler, em poucas passagens, visualizar seu percurso até a adolescência, em Curitiba. Ele um dia foi criança, morou no Mato Grosso do Sul, brincou com o perigo no momento que quase pegou numa cobra, mas a mãe o impediu. Nessa mesma infância, o pai é apresentado como um sujeito bruto, que no lugar de carinho preferiu nunca deixar faltar comida para o filho, deduzo. Block, teve avós, teve primos, primas, mas esses personagens surgem na narrativa apenas para alertar que seu nascimento não foi divino. Mas, garanto que quando você ler o livro “O espetáculo do mundo”, vai achá-lo divino. Se você for do tipo religioso, é bem provável que perceba ali um “mito” fundante para uma comunidade exotérica, que você encontre sua própria “Gênesis”, que você queira ser o Antônio Block.
            O personagem bem poderia ser homem, ou mulher, poderia ser a menina que hoje em Recife-PE, trabalha sério com pilates. Poderia ser a outra, que chutou o mestrado em letras, que têm mil empregos, que faz direito na UERN. Poderia ser o cara que nos anos 1994, brincava de ser aprovado em vestibulares, que passou por engenharia civil, arquitetura, que foi para Brasília com seu amor adolescente e que hoje está, dizem, terminando direito na UERN. Block, também poderia ser o cara certinho, vegano, que aceitou uma frase do BBB: “Quanto mais conheço o ser humano, mais adoro meus cachorros”. Cara esse que é técnico em segurança de uma empresa de petróleo, ou ainda, o que já foi professor e hoje é advogado, e que quando lê um livro, sempre deixa sua marca. Poderia ser policial, professor, das letras e assessor parlamentar. Mas não. Block é tudo isso e muito mais. Vamos a um dos seus pensamentos, genialmente descrito no livro, que é assim:
            “ A morte chegará para todos, pensou, e não há nenhuma diferença se ela chegar hoje ou amanhã. Um dia, tudo o que fomos, nossas memórias e pulsões, nossas relações e trajetórias, tudo estará acabado, esquecido e definitivamente disperso no tempo, o que quer que o tempo seja, ilusão ou movimento. As estrelas morrerão e o Universo chegará ao Fim, Block.” (GIROTTO, 2015, p.18).
             Esse pensamento do Block e suas indagações a respeito de sua finitude, sobre o que é o tempo, feitas de forma retórica, não é bem parecido com as indagações que a humanidade e os filósofos fazem a milênios sobre o De onde? Para onde? Ou para quê? Até poderíamos aceitar as coisas assim, mas não, pois o personagem dá a sua própria resposta. Ele diz que o fim é dispersão, que mesmo a morte individual é inevitável, é também a morte de tudo. É a morte do Universo e de tudo nele contido.
             E aprofundemos ainda mais nossa reflexão a respeito desse trecho do pensamento do Block, mas recorrendo a Carl Gustav Jung, no livro “ Memórias, sonhos, reflexões”, no qual o autor assim vai se posicionar: 
             Infelizmente, o lado mítico do homem encontra-se hoje frequentemente frustrado. O homem não sabe mais fabular. E com isso perde muito, pois é importante e salutar falar sobre aquilo que o espírito não pode apreender, tal como uma boa história de fantasmas, ao pé de uma lareira e fumando cachimbo. O que significa “na realidade” os mitos ou as histórias de uma sobrevida, ou qual a realidade aí se dissimula, certamente não sabemos. Não podemos estabelecer se têm qualquer justificativa além do seu indubitável valor de projeção antropomórfica. É preciso claramente consentir que não existe nenhuma possibilidade de chegar-se a uma certeza nesse assuntos que ultrapassam nossa compreensão (JUNG, p. 29-30).”
             O Block, corrobora com Jung, pois ele entende essa frustração em que frequentemente o lado mítico do homem se encontra imerso e que Jung denunciou magistralmente. Porém, ele busca se distanciar dela em seu pensamento e dá sua resposta para a vida póstuma. No caso do nosso personagem essa seria a dispersão. Em muitas das passagens do livro “O espetáculo do mundo”, Antônio Block conversa com seus amigos sobre toda essa sua busca de um sentido para a vida e suas formulações sobre morte-vida e seus significados sempre estão presentes. Eles discutem sobre política, religião, terrorismo, Universo, subverso e as muitas incertezas teóricas e metodológicas que essas questão trazem em si. Conversas que eles embasam discutindo desde “O princípio da incerteza”, de Heiseberg, ao Gato de Schródinger e Einstein, entre outros grandes pensadores e cientistas da humanidade. Isso tudo buscando uma explicação sobre a vida, seu significado e valia. E sobre como devemos atuar no espetáculo do mundo, já que somos espectadores e personagens atuantes ao mesmo tempo. E mesmo que todas essas discussões não sejam suficientes para responder as perguntas do no jovem Antônio Block, professor de biotologia, em cursinho Pré-vestibular, em Curitiba, mas que depois vem fazer concurso público, em Natal, para poder, quem sabe, se realizar pagando contas e, com essas pagas, ter uma vida feliz e significativa. Isso você poderá observar no livro e comprovar se o que escrevo sobre Antônio Block é verdadeiro ou não.
                Mas, deixemos a biografia do Block para trás e voltamos a nos ater em apresentar o livro “O espetáculo do Mundo”. Angelo Girotto, como um bom fazedor de textos que é, não deixaria linhas soltas, não deixaria que a gente se perdesse, nem muito menos que não pudéssemos, mesmo que de forma superficial, confirmar a genialidade do Antônio Block nas muitas maneiras que ele responde como deve ser a vida nossa de cada dia.
            Já que sobre a morte nossa de todo dia ela também já falou, vamos a outra passagem do livro: “As pessoas têm seu próprio caminho a percorrer, cada um, apenas cada um é capaz de resolver seus problemas e apenas os seus: Isto, com e sem variações” (GIROTTO, p.47). O que há de genial nisso? Já que é obvio que cada um e só cada um é que pode resolver seus próprios problemas. No meu entender, é que esperamos que um personagem nos diga isso. Esse personagem pode receber variados nomes, em variadas culturas, pode ser um deus nas religião, pode ser um grande estadista na política, pode ser um grande analista na psicanálise ou algo assim. Desde que nos diga com uma autoridade de fora. E o Block é essa autoridade.
             Campo bem perigoso e movediço esse que me coloquei no último parágrafo, já que pus política e religião em linhas tão próximas e ainda afirmei que precisamos de algo que vem de fora para apontar que caminhos devemos seguir. Bem, mas é assim que o Block vai estar durante todo o seu percurso, fazendo do início ao fim do “Espetáculo do Mundo”, a atuação do personagem sempre bem dada em cada ação. Vai carregando ele em busca dessa autoridade que já possui e da qual Angelo Giroto se utilizará para o desfecho de sua novela.
             O Presente em 2015 quem nos dá é Angelo Girotto, com seu livro “O espetáculo do mundo”. Sei que você está aí se perguntando: “só poucos trechos e o Cláudio já fez tantos comentários a respeito do livro? ” Respondo: ele está nas livrarias, sugiro que compre e leve-o para casa e leia-o do início ao fim. Comece pelas orelhas – busque entender dali quem é o Angelo, quem é o ilustrador do livro. Deguste cada ilustração, busque as surpresas do desenrolar da história, tente fazer a ponte entre a dedicatória feita pelo autor e o personagem e outros que não estão no livro, mas que aqui eu os coloquei. E por fim, você compreenderá porque o mundo é um espetáculo e você é o único capaz de escrever o roteiro para sua atuação nele, o mundo. Então perceberás porque o livro é um presente.
             E por último, sorria, se também conseguir compreender a ligação entre o que diz Henri Bergson, nesse trecho do seu ensaio sobre o significado do cômico: feito no livro O Riso: “Chamamos a atenção para isto: não há comicidade fora do que é propriamente humano. Uma paisagem poderá ser bela, graciosa, sublime, insignificante ou feia, porém jamais risível. Riremos de um animal, mas porque teremos surpreendido nele uma atitude de homem ou certa expressão humana. Riremos de um chapéu, mas no caso, o cômico não será um pedaço de feltro ou palha, senão a forma que alguém lhe deu, o molde da fantasia humana que ele assumiu. Como é possível que fato tão importante, em sua simplicidade, não tenha merecido atenção mais acurada dos filósofos? Já se definiu o homem como “um animal que ri”. Poderia também ter sido definido como um animal que faz rir, pois se outro animal o conseguisse, ou algum objeto inanimado, seria por semelhança com o homem, pela característica impressa pelo homem ou pelo uso que o homem dele faz.” (BERGSON, p.7)
             Obrigado e atue firme sobre sua própria vida, construa todos os seus sonhos, busque agir com ética, lembre-se que essa só é possível se você exercitar sua liberdade. Obrigado ao fazedor de texto, por ter escrito “O espetáculo do mundo”. E lembre-se do que Paul Veyne disse: “A verdade é um castelo que construímos para satisfazer nossas vontades”. Então, não temos para quê impor as nossas verdades a ninguém, pois assim, nos ensinara Antônio Block, mesmo sem saber, a reinterpretar Paul Veyne.



Claudio Wagner
Poeta, professor historiador, Cientista das Religiões, 1º Secretário da SPVA/RN e autor do livro Entre a Sombra da Razão e a Razão da Sombra.
 





Referencia:
BERGSON, Henri, O Riso, ensaios sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro, Zahar Editores S/A, 1983.
GIROTTO, Angelo, O espetáculo do mundo. Natal-RN, CJA Edições, 2015.
JUNG, Carl Gustav, Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro, Editora Nova Fronteira, 1986.
VEYNE, P. Humanistas: romanos e não romanos. In: GIARDINA, A.(Org.) O homem romano, Lisboa : Presença, 1991. Extraído de: BELTRÃO, Claudia e DEVIDSON, Jorge, História Antiga v.2, Rio de Janeiro: Fundação CECIERI, 2010.
SOUZA, Roberto Acízelo de. Teoria da literatura. São Paulo: Ática, 1995.



quarta-feira, 4 de julho de 2018

Resenha Poética com Cláudio Wagner: Apenas Palavras de José de Castro



APENAS PALAVRAS?


                       Apenas Palavras é o título de um dos muitos livros do escritor José de Castro. Confesso que me apropriei do mesmo, usando-o como título deste texto, mas adicionando o sinal de interrogação.  Até o final do que escreverei, saberás porque fiz isso.
                       José de Castro, autor de Apenas Palavras, apesar de mineiro, tem toda sua produção literária no Rio Grande do Norte e, porque não dizer, grande parte da sua vida construída em terras potiguares. Certo dia, uma pessoa chegou até mim e disse: - Claudio, José de Castro gosta é de pão de queijo! De pronto, falei que também gosto dessa iguaria. Daí a pessoa insistiu e falou: - Você não está entendendo! O que quero dizer é que ele não pode ser considerado um escritor potiguar. Então, falei que tenho certeza que ele adora praia, sol e ginga com tapioca e que tudo isso pode ter em Minas Gerais, mas praia, a geográfica garante ser impossível. Mesmo pensando que todo escritor é universal, assim como qualquer outro artista, lhe digo que José de Castro é o Mineiro mais Natalense que conheço! E sua obra é genuinamente potiguar! Ela tem os traços, os trejeitos, as características de nossa gente. Todo o DNA da produção desse senhor, é POTIGUAR! Ou você acredita que A Cozinha de Marinha Farinha foi inspirado em Caranguejo mineiro? Me poupe né!
                       Eu me encontrei com José de Castro num belo dia de julho de 2017 e na ocasião, estava na Cooperativa Cultural da UFRN. Eu arrotava aos quatro cantos ser o escritor mais vendido daquela livraria. Acredito que isso o fez se aproximar de mim e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, me disse ir algumas vezes ali para pegar dinheiro dos seus livros, mas não sabia se eram mais vendidos quanto o meu. Perguntou meu nome e o título do meu livro. Respondi ser Claudio Wagner e meu livro, Entre a Sombra da Razão e a Razão da Sombra. Ele apresentou-me o dele, Apenas Palavras, foi quando descobrimos que ambos foram publicados pela mesma Editora. Castro sugeriu fazermos um escambo, então trocamos os livros.
                       Se é verdadeira essa frase de Truman Capote: “Meus conhecidos são muitos, meus amigos poucos; os que realmente me conhecem, são menos ainda.” Ou seja, é difícil conhecer alguém, então não conheço o José de Castro. Essa é a forma que o poeta João Andrade, apresenta o José de Castro na orelha do Apenas Palavras. E João Andrade vai mais além, dizendo que conhece sim o poeta José de Castro e sua poesia. Pois bem, não conheço o José de Castro. Como diz Capote, acho até difícil conhecer alguém, mas a obra dessa pessoa, penso que sim. O que ele escreve, está ali estático, sem movimento, sendo possível revisita-la, para traçar comparações, fazer apontamentos sobre seus aspectos, defini-la dentro de um gênero literário, nesse caso, o gênero poético. E, mais que isso, é possível tecer comentários sobre o autor, sobre a forma como ele escreve, se bem ou mal, se diz algo de relevante ou não, se sai do lugar comum ou fica preso no coloquial, sem nada acrescentar de inovador.
                       Peço para que esqueça um pouco que estou falando sobre livro e sobre autor e venha comigo para darmos juntos uma guinada e falar sobre roteiro de viagem e sobre guias turísticos, desses bem especializados, do tipo que sabe tudo em relação a cada lugar apresentado no roteiro por ele definido, conhece cada lugar que será visitado pelo turismo. Bem, José de Castro é esse guia. O seu livro, o lugar para onde viajaremos. O roteiro, a forma como o livro está dividido (definido).
                       Vamos a nosso roteiro: o livro tem 124 poemas, divididos em V capítulos: I o eu poético; II o eu feminino; III o eu lírico; IV o eu filosófico e V o eu navegante. Como cada título dos capítulos sugerem, temos um apanhado de vários eus e suas múltiplas possibilidades dentro da arte de fazer poesia, onde podemos afirmar vários Josés e seus Castros a brindar o mundo com uma poesia que vai versar em formas variadas de composição, que vai brincar com temas filosóficos, que vai vestir e revestir o poeta com o manto e uma alma feminina, traçando uma lírica embasada na beleza, sempre apoiado numa escrita fina, num português impecável, marca de um autor comprometido com o uso da língua escrita.
                       Inovação? Apenas Palavras, de José de Castro, lançado em 2015 pela CJA Edições, é um livro onde não faltam lugares incomuns, que fogem do cotidiano, mas esses, eu só afirmo a existência, não apontarei aqui nenhum, ou quase nenhuma, já lhe mostro porque, pois, você é quem irá seguir o roteiro do nosso guia e nele irás achar o que confirmam minhas palavras.
                       Deixo apenas um poema, justamente o que dá nome ao livro:

Apenas palavras me barulham por dentro,
me baralham e me bailam
me embalam e em mim se calam.

Meu casulo, minha clausura
é o verbo cela onde habito,
onde falo, onde calo o meu grito.
Grave escrita breve me agrava.
Corta-me o poema feito espada,
feito faca, adaga, fado de letra torta.

Verso leve me degrada e me condena
a ser escravo das palavras que me escrevem.
(p.18)

                   José de Castro, um homem das letras por excelência, um conhecedor do poder das palavras, justamente ele, traz essas para brincar em seu poema, afirmando em metaforiza-las, sobre as possibilidades de intervenções que essas palavras provocam. Ora as palavras brincam com o poeta, ao mesmo tempo que esse brinca com elas, e essa brincadeira faz com que um e outro virem cúmplices, numa dialética de si reinventarem, nesse caso criador e criatura viram um só. As palavras e Castro são unos, inseparáveis, indivisíveis e sempre a si transformar, dando um ao outro o combustível de transcender as fronteiras do Signo – Significante – Significado – Significação, como dizem o mestre da semiótica Saussure. E no caso de Apenas Palavras, seu autor inverte brilhantemente o lugar comum das coisas, o que era signo vira significante, e significado, em milésimos de versos e estrofes.
            Lhe desafio a ler, conferir e me refutar um abraço. E assim, você entenda porque uso a interrogação, mudando o título original do poema, é que quero saber por que "Apenas Palavras", José de Castro?


Claudio Wagner


Poeta, professor historiador, Cientista das Religiões, 1º Secretário da SPVA/RN e autor do livro Entre a Sombra da Razão e a Razão da Sombra.

Referencia:
CAPOTE, T. A sangue frio. São Paulo: Abril Cultural, 1980.
CASTRO, José de. Apenas Palavras: Natal-RN. CJA-Editora, 2015.
SAUSSURE, Ferdinand. Curso de linguística gera l. Tradução de Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Bllikstein . 26. ed. São Paulo : Cultrix , 2006 .





quarta-feira, 27 de junho de 2018

Resenha Poética com Cláudio Wagner:Do Casulo à Borboleta As mutações da poesia de Eva Potiguar



Do Casulo à Borboleta
As mutações da poesia de Eva Potiguar

                                                                                   “A lagarta rasteja até o dia em que cria asas...”
                                                                                                                        Flávio José
                                                                                            
            Lançado em 2017, pela CJA Edições, o livro Do Casulo à Borboleta é o primeiro livro solo da Professora Doutora Evanir de Oliveira Pinheiro (Eva Potiguar). Eva é uma artista de muitas facetas e de muitos prêmios ganhos ao longo de sua carreira acadêmica e como docente da rede pública estadual. Ela também se destaca na luta pelos direitos a vida dos animas. Mas, aqui nosso objeto será sua poesia, mais especificamente, a contida nas páginas do seu belo livro. Eva Potiguar tem atuação marcante na Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do Rio Grande do Norte (SPVA/RN), instituição que congrega o que há de melhor na poesia do Rio Grande do Norte.

            No livro Do Casulo à Borboleta, vamos encontrar uma poesia viva, onde as imagens poéticas construídas pela sua autora levam os leitores a refletirem sobre as transformações da própria vida, sobre os muitos círculos pelos quais passamos, até atingirmos um ápice em nossa evolução, ou seja, nossas metamorfoses. Assim, como "Rhopalocera" (borboletas), enfrentamos em nossa jornada nesse mundo, muitas vezes caótico e sem sentido, as metamorfoses (fazes) da vida, vão dando um sentido a ela.
            A Divisão do livro em capítulos (metamorfoses), reforça o que escrevo em relação a transformações, mutações, processos de evolução pois, ele se apresenta dessa forma: 1. No casulo; 2. Saindo do casulo; 3. E a borboleta nasceu e 4. E a borboleta voou.
No primeiro capítulo, somos levados para o mundo em fase embrionária, estamos no casulo. Vivemos os primeiros momentos de nossa transformação, sentimos as primeiras fases de nosso desenvolvimento, experimentando sensações diversas e adversas, mas sem nos entregarmos, pois, florescer (nascer) é o objetivo. As metáforas construídas por Eva Potiguar, são as timoneiras firmes a nos levar da fase de largaras até nossa apoteose de belas borboletas. Um trecho da poesia cujo título dá nome a obra e vocês entenderão o que estou a dizer:

Como voar
Se a asa está quebrada?
Como tornar-se Borboleta
Sem enfrentar o casulo?
(...)
(p.12)
            Apenas uma estrofe do poema, mas já dá para perceber que as construções poéticas contidas na obra, como as perguntas contidas no trecho acima, são os trechos de nossa viagem no existe, pois nela passamos por percalços, por dificuldades, mas que o objetivo é vencermos, alçarmos voos evoluindo, se metamorfoseando de algo pequeno para algo grandioso. Somos apenas um feto nos primeiros momentos, uma lagarta, mas evoluiremos para um ser humano majestoso e belo, sempre que compreendermos que é essa nossa missão. A poesia de Eva Potiguar nos desperta para isso.
            No segundo capítulo, Saindo do casulo, podemos ler um mar de possibilidades do que é nascer, do que é estar vivo, do que é sair da escuridão necessária, enfrentada na fase de casulo, e vim para a luz, conhecer o mundo exterior, passar a experimentar da energia da vida, do dia, das cores, dos sabores, enfim, do que a vida tem a oferecer de bom e de ruim, mas sempre para nosso fortalecimento individual e coletivo. Cada poesia desse capítulo, é por si só odes a grande festa de estar vivo.
            No terceiro capítulo, E a borboleta nasceu, mais um reforço do que é a vida, agora desnudada pela autora em suas contradições dialíticas com sua tese, antítese e a síntese, que traduzindo, temos as concepções da vida (casulo), do nascer (sair desse casulo) e de enfrentar a vida (voar) para grandes saltos em nossa evolução, como seres humanos. O nascer nessa Tese (fase), começamos a formular ideias que podem ou não nos levar por onde ninguém mais foi. A antítese, nossos primeiros passos já dentro da vida, com altos e baixos, recuos e avanços, essa parte em nossa metamorfose é onde temos que decidir como chegaremos na síntese, certamente o momento mais difícil de entendermos, determinarmos, pois aqui precisamos de autoconhecimento para avaliarmos e reavaliarmos os erros e acertos em nossa trajetória ao longo da vida. Digo sem medo que, autora e poesia se fundem, se conectam, assumem um papel de cumplicidade. Eva Potiguar revela sua própria trajetória, seus altos e baixos, suas retomadas diante dos vários caminhos que ela trilhou, para chegar onde chegou, nos dando o direito de nos enxergarmos no espelho que sua poesia produz e irmos buscar nossas realizações entendendo que também passaremos por várias provas e metamorfoses. 

            O terceiro e último capítulo, E a borboleta voou, me agarro firme às palavras de Flavio José: “A lagarta rasteja até o dia em que cria asas...”. Essas palavras nos ajudam a entender a obra de Eva Potiguar, assim como a obra dela auxiliam a entender essas palavras, porque aos poucos cada coisa vai cumprindo seu papel, vai se transformando, vai evoluindo e a lagarta assim que criar assas, irá levantar seu voou, não mais rastejará, não mais ficara limitada ao chão. A obra Do Casulo à Borboleta nos diz isso, nos prepara para isso, para o momento que também alçaremos voo.


Claudio Wagner
Poeta, professor historiador, Cientista das Religiões, 1º Secretário da SPVA/RN e autor do livro Entre a Sombra da Razão e a Razão da Sombra.


Referencia:
BORHEIM, Gerd A. Dialética: Teoria, Práxis. Porto Alegre: Globo, 1977.
ENGELS, Friedrich. Dialética da Natureza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
POTIGUAR, Eva. Do Casulo à Borboleta: a poesia da resiliência e transcendência humana, Natal-RN:CJA Edições, 2017.
JOSÉ, Flávio. A natureza das Coisas. Disponível em: https://www.letras.mus.br/flavio-jose/200188/ acesso: 20.06.2018.
O que é Borboleta. Disponível em: https://www.significados.com.br/borboleta. 21.06.2018.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Resenha Poética com Cláudio Wagner: Vem garimpar comigo as minas páginas de "Os Olhos Salgados".

 Vem garimpar comigo as minas páginas de
 "Os Olhos Salgados"


                      No momento em que espanco as teclas do meu   notebook e os caracteres vão dando forma na tela a esse texto, o Brasil passa por uma situação bem complicada por causa de uma greve de caminhoneiros que durou alguns dias e vem causando problemas no abastecimento de alimentos, combustíveis, entre outros produtos. Essa greve que alguns chamam de Luckout, palavra inglesa para dizer que na verdade a paralisação não é dos trabalhadores, que estão à frente, mas sim dos donos das transportadoras (empresários), que buscam pressionar o governo do vampiro Michel Temer, para que o mesmo baixe os preços do óleo diesel, que segundo os caminhoneiros, onera muito o preço dos fretes, deixando pouca margem de lucro para que esses trabalhadores possam sustentar suas famílias. Porém, se é Luckout, greve ou outra palavra, apesar de várias tentativas, o governo federal não conseguia dar fim a paralisação.
            Essa forma que escolhi para marcar o "tempo", é para você perceber de onde estou escrevendo, digo, de que momento da nossa história lhe dou ciência sobre minha narrativa. Já passou um ano, desde que estive no Bardalos Comida e Artes, ali no centro da Cidade do Natal, participando do evento que lançou o livro "Os Olhos Salgados", cuja autoria é do jornalista Cefas Carvalho.
            No livro, Cefas narra a história de Alberto, um homem de meia idade que após perder o grande amor de sua vida, resolve retornar para sua cidade de origem, deixando para trás, tanto o barulho e correria da Cidade de São Paulo, quanto as coisas que assombram sua alma, como as lembrança de sua falecida esposa e seus próprios questionamento a respeito da vida, questões existenciais, que cedo ou tarde chegam e se instalam na busca de que façamos uma prestação de contas conosco, se temos uma vida que valha apena ser vivida, uma vez que acabamos perdendo pessoas que nos são tão caras.
            Take it easy (se acalma), daqui deu para perceber, você aí resmungando, quem diabo que vai ler esse texto, ou mesmo esse livro, porque certamente se trata de um livro cheio de depressão e amargura. Tome tento, vê se perderia meu tempo escrevendo sobre algo amargo, para baixo, depressivo e etc. Sim, confesso até escreveria, mas não é esse o caso.
            Cefas Carvalho com a maestria de uma rendeira, que em cada ponto presenteia o mundo com uma arte única e bem-acabada, dá vida a um homem (personagem) que juntamente com sua filha e agora único elo com a esposa, que já se foi, vão experienciar os prazeres de uma viagem. Pelas suas falas dentro da história e pela forma que o pai a trata, a menina, quase adolescente, é dona de uma inteligência bem aguçada, está sempre a questionar o pai sobre tudo e todos. Ela parece ser a ancora que prende o pai a realidade do mundo, único motivo pelo qual ele mesmo não desistiu de viver, depois que sua esposa morreu. Esse dialogo pai e filha demostra essa ideia que levantei:

- Você está feliz, papai?
- Eu sempre estou feliz se você estiver feliz.
- Essa resposta não vale.
- É uma resposta como qualquer outra…
- É a resposta que os pais sempre dão para
os filhos, até nos filmes!
- Talvez porque seja verdade - argumentei.
Violeta me olhou, arriscou um meio sorriso,
que no caso dela, significava um misto
de felicidade com aceitação da resposta, e
voltou-se para olhar a paisagem…

            Essa conversa das personagens demonstra o grau de envolvimento e cumplicidade pai e filha, assim como demostra a inteligência da menina quando inqueri o pai sobre algum assunto. Poderia ter utilizado de outras falas dentro da história que provariam facilmente essa tese, mas escolhi essa.

            São essas, as personagens principais desse belo romance, no qual faz descrições divinas de cenários paradisíacos e pessoas encantadoras. Um exemplo é a descrição da bela praia de São Miguel do Gostoso, onde pai e filha foram passear, saindo de Natal e lá chegando o pai se vê enamorado por uma bela jovem, cuja descrição feita por Cefas dos seus atributos, deixaria qualquer um por ela apaixonado.
Em outro passeio feito por pai e filha, na paradisíaca Praia de Pipa, Cefas é mais uma vez minucioso, é um arquiteto das palavras, harmoniza, para quem está lendo, todos os encantos e atrativos da bela Pipa com seus: bares, restaurantes, hotéis, pousadas e seu lindo mar, sempre a nos convidar para um delicioso mergulho, seja dia ou noite.
O Paulista-Potiguar, (título outorgando por mim a Cefas Carvalho) é um profundo conhecedor dos temperos de como fazer um excelente romance. Aqui desnudo algumas partes dessa bela história que me cativou como leitor do começo ao fim do livro. Cefas nos coloca dentro dos ambientes de sua narrativa, leva-nos a viver, sentir, desfrutar das emoções dos personagens, e isso está por demais manifesto em “Os Olhos Salgados”.
O encontro do Alberto com uma amiga do tempo de faculdade, na praia de Pipa, essa casada, mas com um marido que não lhe dá a mínima, e uma amiga dela, é algo de fazer com que queiramos não apenas vivenciar o momento, mas também termos um encontro dessa natureza, experimentando o que o Alberto experimentou com essa amiga. E se você nunca passou perto da praia de Pipa, no dia que lá estiver, se sentirá familiarizado com a praia, como se sempre por ali estivesse vivido. Siga meu concelho, leia “Os Olhos Salgados”, que além dessa intimidade que passarás a ter com Pipa, ainda conseguirás entender porque ao olharmos dentro da retina de quem amamos, salgada pelo mar, veremos refletida a beleza da vida, do mundo, esse sempre a se reinventar. Muitas coisas foram aqui sonegadas, pois você é quem irá ler, com a tarefa de garimpar nas páginas de "Os Olhos Salgados" sua própria interpretação.


Claudio Wagner

Poeta, professor historiador, Cientista das Religiões, 1º Secretário da SPVA/RN e autor do livro Entre a Sombra da Razão e a Razão da Sombra.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Resenha Poética com Cláudio Wagner: "Cangaço e o Carcará Sanguinolento e Outras Contações de Histórias"


 "Cangaço e o Carcará Sanguinolento e Outras Contações de Histórias".


            Se Junior Dalberto fosse um médico, tenho plena convicção que ao passar uma receita para um paciente, esse iria passar horas lendo-a, não porque as letras ali fossem difíceis de serem compreendidas, mas porque ele de forma magistral, certamente teria descrito cada elemento químico que compõe o medicamento, ao ponto de o paciente ficar vidrado na descrição e se deleitar com a história incrível que a receita está lhe proporcionando.
            Dalberto tem uma considerável produção literária, das quais destaco Reféns nos Andes (Baseado em fatos reais), Blattdea, Teatro Magico e Pipa Voada Sobre Brancas Dunas. Esse último livro operou em mim uma revolução no que se refere a experiência no prazer de ler. Entretanto, nesse texto, evidenciarei a obra Cangaço o Carcará Sanguinolento e Outras Contações de Histórias, tecendo minha impressão do mesmo, mas já avisando, apenas do conto que dá nome ao livro.
            A obra Cangaço e o Carcará Sanguinolento e Outras Contações de Histórias" que tenho em mãos, é uma segunda edição revisada, atualizada e lançada em 2017, pela Editora CJA.  Em pouco tempo de lançado, o livro já faz sucesso, sendo indicado pela escola CDF para ser trabalhando com seus alunos em sala de aula e faz parte de um projeto do Sindicato dos Policiais Federais, nas escolas públicas potiguares.
Os contos que estão na obra são: Cangaço e o Carcará Sanguinolento, A Sopa da Discórdia, Nefertiti, A gata Egípcia, A Barca de Caronte, O Tango no Espelho, Bordeline, O velório da Marquesa DI Fátimo e O Elevador. Em cada conto Dalberto demonstra toda sua habilidade em contar história e em deixar-nos cativados, loucos para lermos até o fim cada conto e saber como será o desfecho das narrativas.
            No conto Nefelitite, a gata egípcia, fiquei abismando como é que alguém consegue escrever que uma pessoa recebeu de outra uma gata de presente, algo aparentemente tão banal, mas Júnior pega esse fato e faz dele uma história com todos os elementos que uma história excelente tem que conter. Êpa! Falei desse conto assim superficialmente, só para deixar vocês loucos para ler, mas o objetivo aqui é só o conto "Cangaço e o Carcará Sanguinolento" apesar que o livro em si é de excelência.
            Não posso precisar se Júnior Dalberto já leu "O Herói de Mil Faces", de Joseph Campbeel, mas posso jurar de pés juntos, que o menino Cangaço, apelido do personagem do conto, cumpre perfeitamente a saga do herói colocada pelo Campbell ao analisar como se compõe o mito em algumas culturas, que é mais ou menos assim: O herói recebe um chamado no qual é encarregado para uma determinada missão, caso aceite esse chamado, parte para uma jornada e ao retornar, numa apoteose, já não é mais um ser igual aos demais e sim algo revestido de uma áurea especial (grifo meu), já que Joseph Campbeel faz uma análise mais detalhada, aqui eu apenas demonstro em partes, para auxiliar em minha argumentação.
            No conto, um Carcará, ave de rapina comum nos céus do sertão nordestino, causa muito prejuízo para as pessoas que vivem na pequena vila de pescadores ao redor do Açude Gargalheiras, pois os filhotes dos animais que essas pessoas criam, como patos e galinhas, que servem para ajudar na renda ou mesmo para melhorar a mistura de suas refeições, acabam nas garras e no bico da ave que os devora sem dó, nem piedade, o que faz do pássaro um ser indesejado pelas pessoas da região e o menino se vê na obrigação de dar um fim aos dias do carcará, ou seja, essa passa a ser sua missão, sendo o desfecho a execução de tal feito, a apoteose que transformara o menino em homem e o homem, por sua vez, em herói. Dar fim aos dias do carcará comedor de pintos e patinhos indefesos é o chamado de Cangaço, que por esse foi aceito e agora vamos a jornada, até a redenção, ou seja, se ele irá ou não concluir sua tarefa (missão).
            Junior Dalbeto, como bom conhecer da fórmula que constrói um herói, irá dar a esse um guia, um professor, um instrutor, um ser que irá guiar (ensinar) ao menino os ardilosos que se deve conhecer na arte de matar uma ave como o carcará sanguinolento. Daí, em uma outra parte do conto, estão as ações que irão trazer para morar nas serras que circundam o Gargalheiras, um velho índio, profundo conhecedor das técnicas de caça, que serão ensinadas ao Cangaço, para que sua jornada tenha êxito.
            Num lugar remoto e longe do açude Gargalheiras, um índio que perdeu toda sua família no mar, revoltado com esse destino, abandona sua tribo montado em cavalo e depois de cavalgar por muitos dias, acaba de uma forma mágica parando no Gargalheiras. Ele conhece o menino Cangaço e os dois ficaram muito amigos e dessa amizade, o índio ensina para o menino todos os segredos que havia aprendido na sua tribo, desde criança, sobre a arte de caçar. Quando curumim, ele mesmo havia caçado um jacaré e tal feito lhe rendera muito respeito por parte de seu pai e dos outros membros da sua tribo. Conta para Cangaço, que quando um caçador mata um animal, deve comer o coração desse ainda cru, pois assim adquirirá poderes especiais para novas caçadas. No conto, vocês irão ler como isso é descrito em detalhe.
Uma amiga minha, a Gabriela Silva, diz algo em um poema dela que bem descreve o que é um escritor. Lanço mão desse poema aqui para descrever Junior Dalberto:


Ser escritor é
Olhar pra dor e sorrir
Porque sabe que
Usando as palavras certas,
A dor se torna bela.
A saudade cria rimas,
As lágrimas viram estrelinhas,
A ansiedade fica bonita e
Toda a dor vira
Poesia.

            Júnior Dalberto é tudo isso que a Gabriela escreve e até um pouco mais. São muitos detalhes, muitas coisas que sua genialidade coloca no texto que vai fazendo com que as coisas se revistam de novo sentido e nos emocionem em cada novo paragrafo escrito por ele.
            Percebo que qualquer um de nós adoraríamos ser o menino Cangaço, andar por aí com uma baladeira, usando sempre as mesmas roupas que de tão usada, já se confundem com a própria pele. Quem não amaria ser livre para tomar banho na rua sem preocupação com o tempo? Quem não gostaria de se embrenhar nas matas, dentro da caatinga e conhecer as belezas das serras e seus muito encantamentos? Quem não quer ter um amigo confidente que lhe ensine sobre os segredos da vida?
O enredo desse conto tem muitos elementos, tem coisas boas e ruins que acontecem com nosso protagonista, que hora e outra leva umas porradas do pai, que o disciplina. Tem a mãe do menino com seus afazeres e preocupações e uma amiga com quem divide confidencias. Vocês irão conhecer as falas dessas pessoas, as vidas dessas pessoas e darão suas próprias opiniões, assim que lerem esse magnifico livro de Júnior Dalberto. Eu apenas vaguei por alguns momentos do menino, não entrei na sua profundidade, mas em alguns de seus momentos crucias, seu aprendizado para matar o pássaro que muito não acreditam que ele conseguirá.
            Meus estimados leitores, quando lerem "Cangaço e o Carcará Sanguinolento e Outras Contações de Histórias", por favor me avisem se a saga do herói foi concluída? Como nos permite sermos livres esse Junior Dalberto? Dalberto é ou não majestoso na utilização das palavras? O herói até passa por muitas fases, até se transformar em herói, mas aí vão lá e descubram como.

Boa Leitura!!!


Claudio Wagner

Poeta, professor historiador, Cientista das Religiões, 1º Secretário da SPVA/RN e autor do livro Entre a Sombra da Razão e a Razão da Sombra.





Referências:

CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. São Paulo: Cultrix,1997.
DALBERTO, Júnior. "Cangaço e o Carcará Sanguinolento e Outras Contações de Histórias". CJA-EDITORA, Natal-RN, 2017.
SILVA, Gabriela. Texto que me foi enviado por e-mail. Natal-RN, 06 de junho de 2018.